“A ENFF permite sonhar desde a realidade, e isso já não é utopia, é algo que existe e cresce”

Campo03

 

"Na rotina dos educandos da Escola Nacional Florestan Fernandes, descobrimos o estudo, o trabalho e o lazer como práticas do que é viver a instituição"
 

Por Vivian Fernandes

“A Escola não está só formando militantes, está construindo um novo mundo. E o constrói na infraestrutura, na cabeça e no coração”, relata Concepción Oviedo, conhecida como Cony, uma paraguaia de 28 anos que vem pela terceira vez à Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF). Ela já viveu diversas experiências em suas passagens pelo centro de formação e viu as mudanças no local. Na primeira visita, em 2013, não havia a Casa de Artes Frida Kahlo. Um ano depois, estavam colocando o teto. Agora, como educanda do 5o Curso de Especialização em Estudos Latino-Americanos, ela vivencia a Casa Frida em pleno funcionamento.

Assim ela espera ver o Campo de Futebol Dr. Sócrates Brasileiro. “A iniciativa de ter um espaço de esporte como parte dessa educação integral, transformadora e libertadora é um avanço e nos demonstra que esse sonho segue crescendo”, acredita. Essa é uma boa forma de sintetizar o que é o método da ENFF, que une educação e trabalho em um espaço construído por militantes. A próxima etapa é o Campo Sócrates, para a prática de esportes, que está na fase de captação de recursos através de uma plataforma colaborativa (saiba mais aqui).

Alvorada

Cony faz parte da Coordenadoria Nacional de Organizações de Mulheres Trabalhadoras Rurais e Indígenas (Conamuri), do Paraguai. De família camponesa, a jovem viveu a maior parte da vida na cidade. Começou a militar no movimento estudantil e, após se graduar na faculdade de Comunicação, uniu a luta pela terra e o feminismo e entrou na Conamuri.

A conversa com ela ocorreu em uma noite fria, logo após ela e seus companheiros prepararem uma mística para a manhã seguinte, uma apresentação sobre Índia Juliana. Paraguaia, a indígena, no século XVI, se levantou contra a dominação da Coroa Espanhola e decapitou seu marido, com o qual tinha sido obrigada a se casar. Essa foi a história desta mística, um espaço que ocorre todas as manhãs na ENFF, às 7h30 ou 7h45; logo após o café da manhã, que inicia às 7h.

Em seguida, os educandos passam para as aulas ou atividades de estudo em grupo, nos núcleos de base. Em um destes está Luiz Paulo de Siqueira, 27 anos, de Minas Gerais. Filho de mãe professora universitária e pai jornalista, estudou Biologia na Universidade Federal de Viçosa. Ativo no Centro Acadêmico (CA) à época, atualmente Luiz integra o Movimento Nacional pela Soberania Popular frente à Mineração (MAM). Ele é colega de turma de Cony e concorda com ela sobre o funcionamento da Escola. “O método da Escola é fascinante, com o papel do trabalho na formação”, afirma.

“A iniciativa de ter um espaço de esporte como parte dessa educação integral, transformadora e libertadora é um avanço e nos demonstra que esse sonho segue crescendo”, acredita Concepción Oviedo, Cony.

 

Intensidade

As atividades do espaço passam por diversas frentes e, no cuidado com as refeições, que também são preparadas com alimentos da horta orgânica da ENFF, todos ajudam. A cada refeição, um núcleo de base é responsável em ajudar nas tarefas. Neste dia, o núcleo de Luiz foi o escalado para o almoço, que ocorre ao meio-dia. Em tarefas deste tipo também estão os intervalos para café, de manhã – das 10h às 10h15 – e na tarde – das 16h às 16h15.

O período logo após o almoço – das 12h30 às 14h – é reservado para as atividades pessoais: descanso, lavar as roupas, bate-papo, tocar violão e qualquer outra atividade. Em seguida, vem o momento do trabalho militante – 14h às 15h30 –, quando os educandos são divididos em tarefas fixas, que vão desde a manutenção de infraestrutura e limpeza da Escola, passando por atividades na horta, biblioteca, lavanderia, comunicação, ciranda.

Finalizado o trabalho, há um intervalo de meia hora entre as atividades. “Nós temos um intervalinho de 15h30 às 16h, aí eu estou usando para fazer as atividades físicas”, explica Luiz Paulo, um dos poucos que realiza periodicamente exercícios físicos. A necessidade que o move é um problema de coluna: “Se eu não cuidar, não consigo nem sair da cama, trava”. Além disso, ele acredita que “não é só importante amadurecer intelectual e politicamente, mas também ter esse cuidado com o corpo”.

Para ele, o Campo Sócrates virá bem a calhar. O campo de futebol será acompanhado por outros equipamentos de lazer e exercícios físicos, e isso “pode ser um incentivo para nossa militância sair do sedentarismo. E para os que já praticam, ter um espaço melhor e mais adequado”.

No projeto político-pedagógico da ENFF, explica uma das coordenadoras da Escola, Carla Loop, os momentos dedicados a essas práticas são chamados de “tempo esporte e lazer” ou “tempo de cultura corporal”. Assim, entra na programação dos educandos um momento específico para isso. “Nos cursos de 45 dias e de três meses, tem uma vez por semana. Nos cursos mais curtos, de até 20 dias, tentamos garantir pelo menos um tempo”, afirma.

Para Luiz Paulo, “não é só importante amadurecer intelectual e politicamente, mas também ter esse cuidado com o corpo”.

Sonhos compartilhados

No jantar – às 19h – já se pode ver o cansaço estampado nos rostos. As mesas vão se formando e esta também é uma oportunidade de conhecer mais pessoas em cursos na Escola. No período noturno, a ENFF não para. A depender do dia, reuniões, atividades e estudos; ou conversas e integração. As noites mais esperadas são as de “cultural”, festas de confraternização e de conhecer outras culturas.

Dependendo da época do ano, com a noite, chega também o frio à Escola, localizada no município paulista de Guararema. Nos dormitórios coletivos, em quartos de seis ou oito pessoas, o cansaço dá lugar ao sono e às cobertas, e logo cedo a maioria já está dormindo.

O que nunca descansa, no entanto, são os sonhos e os ideais de quem passa pela ENFF. “Aqui temos que construir, desaprender, aprender e se desafiar todo o tempo. Eu acredito que isso é algo que marca a vida. Quem foi seu companheiro ou companheira dentro da Escola é teu irmão, tua irmã, é teu camarada para toda a vida, ainda que nunca mais os veja. Saber que em alguma parte do mundo está um companheiro ou uma companheira com os mesmos sonhos que você, e que o está construindo”, expressa Cony, sem deixar de se emocionar e emocionar a quem está ao redor.

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